Vivenciar a Quaresma

Quarenta dias para reordenar a vida. A Quaresma não é tristeza imposta, mas alegria da preparação para a Páscoa, festa central da fé cristã.

A Quaresma é o tempo penitencial mais intenso do ano litúrgico, em que a Igreja convida todos os fiéis à conversão. Começa na Quarta-feira de Cinzas e se estende até a Missa da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa, totalizando quarenta dias (sem contar os domingos).

O número quarenta tem profundo significado bíblico: quarenta dias do dilúvio, quarenta anos de Israel no deserto, quarenta dias de Moisés no Sinai, quarenta dias de Elias caminhando para o Horeb, e — sobretudo — quarenta dias de Jesus jejuando no deserto antes de iniciar sua missão. Cada Quaresma nos convida a entrar nesse deserto com Cristo, para sairmos com Ele ressuscitados na Páscoa.

As três práticas quaresmais

Cristo no Sermão da Montanha (Mt 6) ensinou três práticas essenciais: oração, jejum e esmola. Estas são as três colunas da Quaresma cristã.

1. Oração intensificada

A Quaresma é tempo de oração mais demorada, profunda e regular. Sugestões:

2. Jejum e abstinência

O jejum é privação corporal voluntária por motivos espirituais. Não é dieta nem moda: é exercício de domínio próprio, solidariedade com os famintos e oferenda a Deus.

Disciplina obrigatória da Igreja:

O que é o jejum? Tradicionalmente: uma refeição completa por dia (geralmente o almoço), mais duas pequenas (que somadas não cheguem a uma refeição completa). Não comer nada entre as refeições. Água, sucos e remédios não quebram o jejum.

O que é a abstinência de carne? Não comer carne de animais terrestres (boi, porco, frango, etc.). Peixes e frutos do mar são permitidos. Caldos feitos com carne são tradicionalmente evitados em sentido mais restrito, mas há liberdade local.

Para além do mínimo: a Igreja sempre incentivou que cada um, além do prescrito, escolhesse sacrifícios pessoais durante a Quaresma — abrir mão de algo legítimo (doces, álcool, redes sociais, televisão) por todo o tempo, oferecendo a Deus.

"O jejum sem oração e sem esmola é apenas dieta. A oração sem jejum facilmente vira intelectualismo. A esmola sem oração e jejum vira filantropia. As três juntas formam a verdadeira penitência cristã."

3. Esmola e obras de misericórdia

Esmola é dar do próprio para o necessitado, exercitando a caridade concreta. Vai além do dinheiro: inclui tempo, atenção, presença. As tradicionais obras de misericórdia, corporais e espirituais, são o programa quaresmal:

Corporais: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; acolher os peregrinos; visitar os enfermos; visitar os encarcerados; enterrar os mortos.

Espirituais: ensinar os ignorantes; dar bom conselho aos que precisam; corrigir os que erram; consolar os tristes; perdoar as injúrias; suportar com paciência as fraquezas do próximo; rogar a Deus pelos vivos e falecidos.

Escolha uma ou duas obras concretas. Pode ser doar a uma instituição de caridade, fazer visitas a um doente da paróquia, ajudar um vizinho idoso, ser paciente com alguém difícil. O importante é que a esmola doa — que custe.

Datas e momentos especiais

Quarta-feira de Cinzas

Início da Quaresma. Recebemos a imposição das cinzas (feitas dos ramos do Domingo de Ramos do ano anterior, queimados) com as palavras: "Convertei-vos e crede no Evangelho" ou "Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar". Dia de jejum e abstinência. Os fiéis comparecem à Missa em massa neste dia, mesmo não sendo de preceito.

Domingos da Quaresma

Não fazem parte dos quarenta dias contados, mas pertencem ao tempo quaresmal. As leituras dominicais são especialmente ricas (tentações de Jesus, transfiguração, samaritana, cego de nascença, ressurreição de Lázaro, paixão).

Quarto domingo — Laetare

Domingo da alegria moderada no meio da austeridade. Paramentos rosa. Antífona de entrada: "Laetare, Ierusalem" ("Alegra-te, Jerusalém"). Lembra que a Páscoa se aproxima.

Domingo de Ramos

Início da Semana Santa. Bênção dos ramos, procissão, leitura da Paixão (em três vozes ou com a participação da assembleia). Paramentos vermelhos. Os ramos abençoados levam-se para casa, atrás de crucifixos ou imagens.

Tríduo Pascal — o ápice do ano

Via-Sacra

Devoção em que se acompanha Cristo nos passos da Paixão, em 14 estações (do julgamento ao sepultamento), com meditação, oração e canto. Tradicionalmente rezada nas sextas-feiras da Quaresma e na Sexta-feira Santa, mas pode ser feita em qualquer dia.

Pode ser feita na igreja (paroquiana) ou em casa. Há muitas versões: meditações de São Josemaria, do Cardeal Ratzinger, de São Francisco, populares brasileiras. Escolha uma que toque o seu coração.

Confissão pascal

A Igreja prescreve que todo católico em estado de pecado grave deve confessar-se ao menos uma vez por ano. A "época pascal" para esse cumprimento, no Brasil, vai da Quarta-feira de Cinzas à Solenidade da Santíssima Trindade. Aproveite a Quaresma para uma boa confissão. As paróquias geralmente promovem confissões comunitárias, mutirões, horários ampliados.

Como começar bem a sua Quaresma

  1. Faça um plano antes da Quarta de Cinzas: escolha 1-2 práticas concretas para os três pilares (oração, jejum, esmola).
  2. Não exagere: melhor comprometer-se com pouco e cumprir, do que muito e abandonar.
  3. Inclua a família: refeições mais simples nas sextas, oração em comum, Via-Sacra juntos.
  4. Confesse-se logo no início e marque outra para a Semana Santa.
  5. Participe da Semana Santa inteira: não pule o Tríduo Pascal.
  6. Celebre a Páscoa de verdade: oitava inteira, em alegria. A Páscoa dura 50 dias, até Pentecostes.

Que esta Quaresma seja para você um verdadeiro tempo de graça. "Eis agora o tempo favorável, eis agora o dia da salvação" (2Cor 6,2).

→ Próximo: Livros Católicos Recomendados